quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Envolverde - Fórum Social Mundial tem desafio histórico


Por Alejandro Kirk*

A crise capitalista e cinco presidentes se reunindo em Belém comprovam o grande desafio diante desse Fórum: tornar-se uma força global em prol da mudança.

Dados disponíveis sugerem que não existe nenhum propósito social de importância histórica no final das contas. Um “Paraíso na Terra”, um planeta gerido pelos princípios elementares de justiça e igualdade não é inevitável: tudo pode acontecer, inclusive o autoextermínio da vida humana.

No entanto, essa é a hora em que o instinto de autopreservação precede qualquer outra consideração. Nesse estágio de degradação do nosso mundo, o FSM carrega uma pesada responsabilidade, que também é um dever com a humanidade. O teólogo brasileiro Frei Betto forneceu uma poderosa e simples resposta a esse dilema no encontro de Teologia da Libertação, em Belém, realizado semana passada: ou o socialismo passa a existir ou a raça humana deixará de existir.

Mas nem todos estão captando o sinal dos tempos, talvez estejam subestimando as dimensões da sobrecarga capitalista. Alguns, inclusive seguidores antigos do FSM, já haviam descrito não muito tempo atrás o Fórum como um morto-vivo sem valor.“Ele falhou em fornecer novos caminhos para uma mudança global como muitos de nós esperávamos”, o líder de uma ONG de comunicação internacional me disse em dezembro último, quando a crise havia acabado de estourar.

Ao invés disso, aqueles que rapidamente entenderam a situação foram exatamente os comandantes do capitalismo. O sociólogo filipino Walden Bello nos alertou que uma “Social Democracia Global” como resposta está a caminho, implementando muitas das demandas reivindicadas pelos movimentos sociais globais e pelos países em desenvolvimento.

O sociólogo português Boaventura Santos me disse, em uma entrevista na rádio, que eles estão fazendo exatamente o que haviam rejeitado sumariamente como algo inaceitável, durante os últimos 30 anos, por meio da polícia global, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio. Essa crise, ele acrescentou, é o que os países em desenvolvimento têm enfrentado permanentemente por décadas.

Esses movimentos, disse Bello, não devem enganar ninguém: não é um novo mundo de comércio justo, igualdade, verdadeira democracia e bem-estar para todos que eles estão procurando, mas sim salvar o sistema corporativo transnacional com o dinheiro público, grande parte dele vindo de países em desenvolvimento, devido a acordos e práticas financeiras injustas.

Cinco presidentes progressistas da América Latina – sendo eles da Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai e Venezuela – também acreditam que essa edição do Fórum possui conotações especiais e estão se preocupando dessa maneira. Já foi antecipado que eles vão assinar, bem aqui na bacia do Amazonas, no Brasil, um pacto político. Teriam eles escolhido esse local de encontro se o FSM fosse um morto-vivo?

Sejam quais forem suas muitas diferenças nas prioridades e métodos para mudar, a sinalização dos presidentes é clara. O velho debate sobre o caráter e a missão do FSM parece estar completamente tomado por urgências atuais. Muitos dos participantes mais antigos do FSM acreditam hoje que o Fórum, nascido como um ato de resistência quando o neoliberalismo parecia eterno, tem a responsabilidade de se tornar um agente de mudança, não pela compreensão duradoura adquirida pelos debates e trocas de conhecimento, mas sim pela adoção de posições e planos de ação para alcançar o único alvo global possível, como descrito por Bello: a ampliação da democracia, a reforma das Nações Unidas e seu corpo global, como o FMI e o BM, aumentando o controle da população sobre a economia e o estado em todo lugar.

O alvo final, como colocado por apoiadores do plano constitucional do presidente boliviano Evo Morales, não é se “desenvolver” pelo modelo dos países do norte, mas viver bem. Assim é o novo paradigma global e o solo sobre o qual o pontapé inicial desse Fórum foi dado.

* Alejandro Kirk é editor-chefe do IPS-TerraViva. Suas opiniões não necessariamente refletem aquelas do IPS-TerraViva.

(Envolverde/IPS/TerraViva)

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