quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Envolverde - Fronteira da Amazônia com a Guiana é terra de ninguém

Por Ray Cunha, para a Agência Amazônia

BRASÍLIA – Quadrilhas formadas por brasileiros - principalmente amapaenses e maranhenses –, guianenses e ex-legionários matam, saqueiam, escravizam e traficam inclusive mulheres e crianças, em território francês na Amazônia. Brasileiros são escravizados em garimpos clandestinos e atirados em prostíbulos em Oiapoque – cidade do estado do Amapá –, na Guiana Francesa, no Suriname e na Guiana.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, se encontra com Lula nesta terça-feira, 12, em Saint-Georges de l’Oyapock, Guiana Francesa, para tratar da construção da ponte sobre o rio Oiapoque, unindo Macapá (AP) a Caiena, capital da Guiana Francesa, por meio da rodovia BR-156. Dificilmente Sarkozy deixará de abordar com Lula a questão da bandidagem que assola a região fronteiriça entre o Brasil e a potência européia.

Ontem, mesmo Sarkozy anunciou uma ofensiva, a Operação Anaconda, contra os garimpeiros que atuam de forma clandestina na colônia francesa. A operação começará na próxima semana, com mais de mil soldados franceses, durante o tempo que for necessário. A Agência Amazônia vem denunciando a situação dos brasileiros na Guiana, desde o ano passado.

“Não quero que continuem desrespeitando as barreiras terrestres e fluviais. Se alguns irredutíveis não entenderam que Guiana é França e que a França se faz respeitar, faremos com que entendam”, rugiu Sarkozy. Mas um alto comando do Exército francês, não identificado, citado pelo Le Journal du Dimanche, se mostra cético, ao considerar que “o Brasil tem muitos outros problemas”.

A deputada Janete Capiberibe (PSB-P) mostrou-se satisfeita com a retomada do Acordo de Cooperação Brasil-Fança, foi retomado pelo ex-governador do Amapá, João Capiberibe, em janeiro de 1996, na França.

“Acredito que esta cooperação deva ir além da ligação rodoviária. É uma região de pouca presença do Estado. Brasileiros e brasileiras carecem de serviços essenciais, têm seus direitos violentados e buscam outra condição na Guiana. A fiscalização de fronteira não existe. Da Guiana, ou são expulsos, ou submetidos à condições degradantes. Mulheres, adolescentes e crianças são traficados para exploração sexual pela fronteira com a Guiana. Tenho certeza que o Governo francês está disposto a contribuir com o Brasil para melhorar esta situação”, afirmou a deputada.


Caçados pela imigração

O francês Le Monde, um dos mais importantes da Europa, denunciou que os brasileiros são “caçados” pela imigração francesa: “Chegam em levas, em busca do ouro ou bicos, para alimentar as famílias no Brasil. São expulsos, mas voltam, ameaçados por doenças e morte, por bala perdida ou golpe de facão”. O Libération, outro jornal da França, publicou que as empresas que empregam trabalhadores ilegais serão obrigadas a bancar a expulsão dos brasileiros.

“Os brasileiros são empurrados pela falta de perspectivas no Brasil e pela possibilidade de receber em euro. Como sua entrada não é oficial, ficam sujeitos a condições desumanas. A ação precisa ser urgente e acredito no entendimento entre os dois governos para resolvê-la, já que quase um quarto da população da Guiana é de brasileiros” – afirma Janete, que pretende fazer chegar ao conhecimento do presidente francês um documento relatando a situação de prostituição de crianças e adolescentes brasileiros na fronteira com a Guiana Francesa e a condição de trabalho escravo dos brasileiros. Janete integrou a CPI do Congresso que investigou o tráfico de mulheres, adolescentes e crianças.

A miséria grassa no Amapá, talvez o Estado mais acossado pela corrupção, atualmente. Oiapoque é uma vitrine de carne infantil, uma bacanal. Da capital Macapá só se salvam as imagens divulgadas recentemente na televisão, em matérias pagas. Apenas um exemplo: Macapá é situada à margem do maior rio do mundo, o Amazonas, que despeja, em média, no Oceano Atlântico, 200 mil metros cúbicos de água por segundo. Em Macapá falta água encanada.

Crédito de imagem: Enrico Bernard
Legenda: Entreposto Vila Brasil, separada pelo rio Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa

(Envolverde/Agência Amazônia)

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