segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O Globo - De Ipanema para a Amazônia

Por André Miranda

Novo livro do jornalista Guilherme Fiuza conta a trajetória de Bia Saldanha e João Augusto Fortes, os empresários que difundiram o couro vegetal pelo mundo

Numa tarde ensolarada no Jardim Botânico, Bia Saldanha e João Augusto Fortes se lembram de histórias passadas nas últimas duas décadas. Sua trajetória conjunta, eles sabem, começou com a marca da tragédia, em 1988, ano em que o líder seringueiro Chico Mendes foi assassinado, no dia 22 de dezembro. Dali, outros crimes ocorreram, mas também houve alegrias, sucessos, amores e, sobretudo, a certeza de terem lutado por um sonho. Um sonho chamado couro vegetal.

A história do material que ganhou o mundo pelas mãos dos dois está contada em “Amazônia, 20oandar” (Record), terceiro livro do jornalista Guilherme Fiuza, que está sendo lançado na próxima quinta-feira, na Livraria da Travessa do Leblon. A data não poderia ser mais oportuna: foi exatamente em 20 de novembro de 1988, há 20 anos portanto, que o empresário João Augusto, herdeiro de uma mega-construtora, ajudou a organizar uma passeata pela preservação da Amazônia que percorreu a orla do Rio. Na mesma manifestação, sem que eles soubessem que seus destinos se cruzariam, estava Bia Saldanha, uma jovem dona de butique que ajudara a confeccionar cartazes para a ocasião. Entre os dois, passaram nomes como Chico Mendes e Betinho. Ali, começava a nascer boa parte da consciência ambiental que faria a cabeça de gerações de cariocas nos anos seguintes. Inclusive de Bia e de João.

— No início, eles foram tomados pelo romantismo. Eram pessoas que tinham uma vida estabelecida, mas que se atiraram de cabeça num ideal. Aos poucos, eles se tornaram empreendedores, responsáveis por um produto sofisticado e de sucesso. Mas isso se deu a custos pessoais e materiais muito grandes — explica Fiuza.

O tal produto surgiu para Bia e João como um saco feito de tecido e lambuzado em látex, que era usado por seringueiros como bolsa.

O saco foi levado diretamente da Amazônia para a EcoMercado, uma lojinha que pregava um ainda então desconhecido conceito de ecobusiness e que a dupla havia aberto em Botafogo, meses antes da Rio-92, a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento que foi realizada no Rio em junho de 1992.

João chamou o material usado para confeccionar o saco de “couro vegetal”, e eles o transformaram em bolsas, pastas, calçados e outros utensílios, incentivando uma linha de montagem com seringueiros e índios na Amazônia.

— O Guilherme foi a primeira pessoa a fazer uma reportagem sobre a gente. E ele pediu exclusividade — brinca Bia.

Na época do surgimento do couro vegetal, Fiuza era repórter de meio ambiente do “Jornal do Brasil” e acompanhou todo o burburinho ecológico que se seguiu à morte de Chico Mendes e se fortaleceu com a Rio-92. Mas, dali, o jornalista acabou seguindo outros rumos — trabalhou com cobertura política no GLOBO e no extinto site “NO.” — e escreveu dois livros: “Meu nome não é Johnny”, a história do extraficante de drogas João Guilherme Estrela que se transformou no mais bem sucedido filme brasileiro de 2008; e “3.000 Dias no Bunker”, reportagem sobre a equipe econômica que combateu a inflação no Brasil.

— Eu resolvi escrever o “Amazônia” por causa do João e da Bia.

As pessoas vinham me sugerir que eu escrevesse sobre outro traficante ou que eu tratasse do Mensalão.

Mas minha motivação são histórias humanas — diz Fiuza. — Muito já se falou sobre o couro vegetal, mas quem são esses dois por trás do produto? São pessoas que levaram tombos, brigaram, enfrentaram gente que quis traílos, mas nunca recuaram.

Adaptação para o cinema em vista

Das brigas descritas no livro, uma curiosamente ocorreu no mesmo Jardim Botânico em que eles se encontraram para a foto acima e culminou numa breve separação, em 1997. Mas nada que pudesse abalar a amizade construída.

Além de atuarem em projetos pessoais — ele é diretor do Espaço Tom Jobim de Cultura e Meio Ambiente e prepara um projeto de venda de crédito de carbono pelas comunidades amazônicas; ela está voltando para o Acre, para difundir um novo projeto de borracha —, eles continuam sócios na venda de couro vegetal.

Mas, mais do que isso, dizem, são irmãos.

— Hoje, estamos fazendo no Tom Jobim uma série de concertos para a Amazônia. Isso foi uma idéia que nasceu de uma conversa com a Bia — revela João.

— A gente é mais amigo do que era. Todo o processo, que está descrito no livro, aprofundou a irmandade — rebate Bia.

Até chegar ao ponto atual, muita água amazônica rolou. A empresa do couro vegetal chegou a ter 30 funcionários, uma rede de 220 famílias envolvidas na produção e contratos com empresas do porte da francesa Hermès. Hoje, em meio a uma dívida com o BNDES, são quatro funcionários e 50 famílias.

O livro de Fiuza descreve esse percurso empresarial, mas não deixa de lado os amores que surgiram, os filhos que nasceram ou os acidentes em que eles se envolveram.

A história é ecológica, mas também é repleta de romance, aventura, mistérios. Com esses elementos, o livro já está sendo lido por dois produtores de cinema, e se espera propostas para que ele seja adaptado para as telas.

Caso vire filme, ficam aqui duas sugestões. A primeira é que Bia — confessa ela, meio brincando — adoraria ser interpretada por Alice Braga. A segunda foi dada indiretamente por Chico Mendes para João Augusto, há 20 anos: “Não dá para salvar a Amazônia de Ipanema”.

Na marra, a dupla aprendeu o recado e encarou a floresta.

— Existe aquele slogan que diz “A Amazônia é nossa”. Mas é nossa de quem? Nós não estamos lá. Mas o João e a Bia foram para lá e fizeram coisas que o Estado não fez — afirma Fiuza.

Um comentário:

Odara disse...
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